Nesta primeira edição traduzimos uma entrevista muito interessante com Aaron Herrington. Um nome que não está entre os mais conhecidos do skate (ainda) e talvez seja exatamente por isso que seja tão massa. Esse profissional americano está em uma das marcas mais efervescentes da atualidade (Polar), vive e é um dos mais comentados nomes em uma das cidades mais atraentes do mundo (New York) e ainda assim trabalha em um café como garçom para ajudar a pagar as contas. Aaron Herrington talvez seja um representante do novo skate profissional mundial. Espero que gostem da entrevista.

Daniel Atassio

Texto por Jamie Owens | Fotos por Mike O’Meally

Tem mais dinheiro no skate do que jamais teve.  Alguns skatistas profissionais estão vivendo uma vida equivalente a atletas mundialmente conhecidos ou até estrelas de cinema. Ainda assim, existem muitos profissionais por aí com seus nomes estampados em shapes que vivem no oposto disso, que não desfrutam das frescuras extravagantes de uma vida aconchegante e nem iriam querer. Eles ainda tem que trabalhar em serviços de meio período para pagar as contas e tem que pedir folga do trampo para sair em tours e achar tempo pra andar de skate. Aaron Herington é um desses caras e ele não reclama. Na verdade, ele é grato só pela chance de ser um Skatista Pro e ser um dos produtivos.

Este herói da classe operária tem sido o assunto da cidade em New York nos últimos anos. Agora, depois de sua parte para o  Static IV no ano passado ele deixou sua marca e está pronto pra  continuar trabalhando nisso.

 

 

Me dê um pouco de sua história. Onde nasceu  e quantos anos vc tem?

Eu nasci em Corvallis, Oregon em 1989, acabei de fazer 25 anos. Crescer no noroeste dos EUA poderia ser desafiador para andar de skate, mas felizmente tínhamos um pico que era embaixo de uma ponte e minha mãe me levava até Portland para andar na antiga pista coberta (Department of Skateboarding).

Você cresceu andando de skate com Sebo Walker ou Silas Baxter-Neal, ou algum daqueles caras?

Nasci na mesma cidade do Sebo, e eu soube recentemente que nossos pais trabalharam nos correios de lá e são grandes amigos. Mas quanto a andar de skate com caras como Sebo, Josh Matthews ou Silas, eu não andei com eles. No máximo encontrava aleatoriamente durante as séries de campeonatos que aconteciam por lá. Fiquei muito amigo do Josh Matthews, mas não o vejo com muita frequência mais e nenhum dos caras na verdade. 

Então, quando vc se mudou pra NY? E o que te motivou?

Bem, eu estava morando em San Francisco antes de me mudar pra NY e não estava fazendo muita coisa lá. Minha mãe foi legal o suficiente para me dar uma passagem só de ida pra San Francisco. Fiquei lá por três anos e no meu aniversário de 21 anos, eu e um amigo fomos visitar NY. Eu tive uma péssima lesão no tornozelo em minha primeira noite lá. Aí me encontrei com o Brian Delatorre que era um grande amigo de San Francisco que me colocou debaixo da asa e me disse: “Larga seu trabalho em SF, fala pro seu amigo que divide a casa com vc que vc não vai voltar e se muda pra minha casa, fica aí.” Então eu perdi meu vôo de volta pra SF e no mesmo dia comecei a trabalhar em um café em NY que agora já trabalho a quatro anos e foi o Brian quem me arrumou aquele trampo. Então o que me motivou foi me machucar e ser forçado a ficar (risos). Mas estou feliz que tenha feito isso.

Massa. Deixa eu voltar pra quando vc se mudou do Oregon pra SF. Você era patrocinado naquele período? Quando as coisas começaram a acontecer pra vc?

Isso é engraçado... quando eu morava no Oregon, eu pegava trucks Phantom do Jason Maxwell através da DNA Distribuidora, eu tinha uns 12 anos de idade. O conheci em um campeonato amador. Mas quando fiquei um pouco mais velho ele começou a me dar shapes Plan B e trucks Silver (ambas as marcas da DNA Distribuidora na época). Então eu tava tipo “Wow, estou pegando shapes e trucks dessas marcas grandes, preciso tentar a sorte com o skate como algo além de um passatempo.” Durante meu primeiro ano em SF, ele me deu shapes, mas depois com essas coisas de orçamento da marca teve que parar. Aí comecei a pagar por shapes e consegui um patrocínio de uma loja em SF. 

Quando eles pararam de te dar shapes, vc ficou chateado sendo que era uma marca tão grande que estava te apoiando?

Claro, fiquei super chateado na época. Eu tinha acabado de me mudar de minha cidadezinha pra SF, então, minha ideia sobre skate não era a mesma dos amigos que eu fazia ali. Depois de alguns meses das pessoas perguntando porque eu usava shapes Plan B e trucks Silver e estando cercado por pessoas influenciadas pela  cena da cidade (San Francisco), Deluxe (distribuidora da Real, Anti-hero, Krooked, Thunder e Spitfire) e tudo mais fiquei pilhado em comprar shapes Deluxe, andar com trucks Indy, e meio que fazer o que eu queria.

Isso é massa. Então quando vc chegou em NY, começou a trabalhar no café. Ouvi dizer que um monte de skatistas já trabalharam nesse lugar.

Sim, o café se chama ‘sNice. Muitos skatistas já trabalharam lá, Tony Cox, Bobby Puleo, Josh Stewart, Kevin Tierney, Jack Sabath e outros.  Era muito louco trabalhar em um lugar tão requisitado e que teve tantos skatistas que trabalharam por lá. Nos primeiros três anos, eu só fazia entrega. Eu gostava muito de fazer entrega, mas com o negócio crescendo e a demanda pelo trabalho aumentando , meu corpo começou a sentir a deterioração. E os invernos são muito rigorosos  com a neve, então no último ano eu só trabalho lá dentro,  fazendo serviços internos.

Como vc se sente sendo um skatista Pro que tem que ter um trabalho regular?

Na verdade eu gosto, porque sendo Pro o Pontus Alv (proprietário da Polar, marca de shapes que atualmente patrocina Aaron) pode me pagar uma grana a mais e não tenho que trabalhar o dia todo, a semana toda. Hoje eu trabalho apenas três vezes na semana. Eu costumava trabalhar de cinco a seis dias por semana. Então eu curto ambos, trabalhar e poder ser pago para andar de skate. 

Você filmou toda sua parte para o Static IV enquanto trabalhava seis dias por semana?

Sim, eu filmei praticamente toda minha parte desde que me mudei pra NY. Na verdade eu preferia andar de skate no clima frio do que no calor. Já que no inverno é tão frio, eu tentava filmar nesse período, então quando o clima ficava agradável no verão eu podia tirar minhas folgas para ir a praia e relaxar. 

Como você faz pra manter o foco em NY, onde a vida noturna pode te sugar?

Não é que eu seja careta, de jeito nenhum, eu fumo e bebo. Mas eu acho que na minha infância, vi meus pais fazerem certas coisas  que meio que me moldaram para jamais ser descontrolado com as baladas. Já perdi tempo me detonando em baladas e acordando no dia seguinte me sentindo uma merda e acabando perdendo um fim de semana. Comecei a curtir estar focado no skate e ser mais produtivo. Trabalhar no Static e estar ao lado da distribuidora do Josh Stewart (Josh é o responsável pela série de vídeos Static e possui uma distribuidora de marcas independentes em NY, bem como a Polar), e Pontus e a Polar com certeza me ajudaram  a continuar produzindo e deixar as pessoas felizes. Só não quero cair num buraco e deixar de andar de skate (com festas e bebida). 

Como vc entrou na Polar?

Conheci o Pontus enquanto filmava para o Static IV. Eu estava filmando muito com o Josh, que estava prestes a começar a distribuir os shapes da Polar. Pontus estava procurando um skatista americano para colocar no time, então o Josh mostrou a ele minhas imagens para o Static. Pontus ficou na pilha depois disso. Ele veio pra NY um mês depois disso para um tour da Carhartt (marca de confecção europeia), nos encontramos e batemos o martelo. 

Além de ter entrado na Polar por conta de sua parte no Static, como tem sido a resposta para sua parte?

Foi um sonho realizado estar associado ao Josh e seu vídeo.  Ter feito todo o projeto, me faz sentir ter atingido um objetivo pessoal. E a resposta positiva das pessoas, se encaixa no que eu estava dizendo sobre ser produtivo e continuar captando boas imagens. É muito motivador, sabe?

Pontus parece ter uma opinião forte sobre o que é skate. O que foi a melhor coisa que v já aprendeu com ele?

Só quero dizer que ele me ensinou a nunca me estressar por seu um skatista. A última coisa que ele quer ver é uma pessoa não curtir algo que amam por tanto tempo. Apesar do skate poder se transformar em um trabalho ou uma ocupação para algumas pessoas, ainda é o melhor trabalho que se pode ter. Então não tem motivo para não ficar feliz em andar de skate.

Qual sua opinião sobre todas as mudanças que tem ocorrido na indústria do skate nos últimos tempos com pequenas marcas de shape aparecendo e com tantas mudanças de time (Alien, Girl, Chocolate...)?

É meio óbvio, sendo que muitas dessas marcas estão no mercado a tanto tempo e se um de seus skatistas-chave sai do time, isso vai mudar a maneira como a marca é vista ou percebida. Tem algumas marcas que você respeita desde sempre, mas agora ela já não são as mesmas de antes e se perde todo o respeito. Acho incrível que caras como AVE e Dill estão fazendo eles mesmos sua própria marca com estilo e direção intensas. O mesmo acontece com a Polar. Nós só estamos tentando fazer o tipo de coisa que gostamos e queremos ver. Vai ser bem interessante ver o que vai rolar no skate nesses próximos anos. Eu gostaria de ver o skate deixar de ser legal de novo. Quero dizer, é massa que todo mundo ande de skate, mas vai ser louco ver como vai ficar nos próximos anos.